Hoje a Dona C. teve alta. A Dona C. tem, como é habitual no serviço onde estou agora, uma série de problemas. 2 tumores malignos, um dos quais já não responde à terapêutica, tendo-se espalhado irreversivelmente para os órgãos e
estruturas da vizinhança. Isso condiciona, entre outras coisas, uma algaliação crónica. A Dona C. foi internada no dia em que eu comecei este estágio, com uma infecção urinária, desidratação e
hiponatrémia. Fomos resolvendo, pouco a pouco, os problemas que a levaram a ser internada, assim como outros que surgiram durante o internamento. Habituei-me a ir observá-la todos os dias, mas mais do que isso, a conversar com ela. Porque embora ela diga o contrário, a Dona C. continua muito lúcida e é uma óptima companhia. Hoje a conversa com a Dona C. chegou ao tema da morte. E eu surpreendi-me a mim mesma e não tive receio de abordar o tema, de falar dos medos e dos desejos dela. Ela manifestou o desejo de ver um Padre, apesar da sua morte não estar eminente. O Padre veio, conversou com ela, deu-lhe a extrema-unção, mas acima de tudo deu-lhe força. E à tarde, quando me fui despedir dela, a Dona C. estava mais animada. Acima de tudo hoje aprendi imenso com a Dona C. E sei que amanhã vou sentir falta de conversar com ela.